Artigos
Pequenas compulsões
Comportamentos ritualísticos
visam reduzir a ansiedade, mas, em excesso, podem desencadear
o transtorno obsessivo-compulsivo
Por Gustavo Teixeira
Gustavo Teixeira é
médico psiquiatra especialista na infância
e adolescência e membro da American Academy of
Child and Adolescent Psychiatry.
Autor do livro: Transtornos Comportamentais na Infância
e Adolescência, Editora Rubio
Contato: www.comportamentoinfantil.com
Obsessões são pensamentos
persistentes e intrusivos que podem apresentar-se sob a
forma de repetição de palavras, números
ou cenas. O indivíduo os reconhece como sem sentido,
inadequado ou desnecessário, mas não consegue
controlá-los. Compulsões, por outro lado,
são comportamentos ou ações repetitivas
e ritualísticas, desencadeadas como resposta a uma
sensação subjetiva de desconforto. Os comportamentos
compulsivos visam prevenir ou reduzir a ansiedade e evitar
alguma situação temida, entretanto causam
sofrimento, porque consomem tempo (mais de uma hora por
dia) e interferem significativamente na rotina social, ocupacional
e acadêmica da criança, adolescente ou adulto
acometido.
A compulsão alimentar
é um exemplo clássico e observado em pessoas
com problemas de obesidade. Nesse caso, o indivíduo
apresenta uma dificuldade muito grande em resistir ao ato
de se alimentar, sendo capaz de comer grandes quantidades
de comida em um curto espaço de tempo. Normalmente,
essas pessoas são extremamente ansiosas e o ato compulsivo
de se alimentar traz um alívio momentâneo.
Estudos com neuroimagem correlacionam esse comportamento
compulsivo com alterações em determinadas
regiões cerebrais, como o aumento do fluxo sangüíneo
na região órbito-frontal e em núcleos
da base, em especial o núcleo caudado. Outros estudos
evidenciam uma diminuição de neurotransmissores
noradrenérgicos no hipotálamo, região
relacionada ao controle da fome e da saciedade. Esse possível
“descontrole” do hipotálamo parece estar
relacionado com a dificuldade dessas pessoas em resistir
ao ato compulsivo de se alimentar.
Essas mesmas alterações
cerebrais também podem causar compulsões por
compras ou por jogos, conhecida como jogo patológico
e caracterizada pela dificuldade em resistir ao ato de jogar
e arriscar a sorte em jogos de azar. Quem sofre desse tipo
de compulsão é facilmente identificado em
cassinos ou bingos, pois comumente perde todo o seu dinheiro
apostando em máquinas caça-níqueis.
A ansiedade antecipatória ao ato compulsivo, seguida
por uma sensação de prazer e alívio
gerada pelo jogo e posterior tristeza e impotência
pela incapacidade de resistir a esses atos compulsivos,
é semelhante às sensações geradas
na compradora compulsiva ou no comedor compulsivo. Tais
fatos reforçam a idéia de uma possível
alteração cerebral comum a todas elas na causa
das compulsões.
Já em outro transtorno,
denominado transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a pessoa
pode apresentar tanto obsessões, quanto compulsões.
A criança, por exemplo, entende que suas compulsões
são desnecessárias e sem sentido, no entanto
apresenta dificuldade em resistir ao comportamento. Em crianças
pequenas, podem ser observadas compulsões sem obsessões
e elas podem não reconhecê-las como sendo excessivas
ou sem sentido e geralmente escondem seus rituais até
estes se tornarem tão intensos a ponto de serem descobertos.
O desenvolvimento dessas
compulsões é resultado da interação
de múltiplos fatores como a herança genética,
grau de ansiedade paterna, tipo de relação
e estilo de criação pelos pais, além
das próprias experiências vivenciadas pela
criança. Eventos traumáticos como a morte
de um parente querido ou o fato de assistirem a situações
ansiogênicas no noticiário, por exemplo, podem
desencadear esse tipo de comportamento.
O TOC na infância
tem início por volta dos dez anos de idade, sendo
mais precoce em meninos do que em meninas; dentre os adolescentes
aproximadamente 3% apresentam o transtorno. Comumente existe
um histórico familiar e é muito importante
ressaltar que os sintomas não irão embora
sem ajuda profissional; cerca de um terço dos adultos
diagnosticados, por exemplo, tiveram sintomas ainda na infância.
Na maioria das vezes a intervenção
interdisciplinar envolvendo tratamento farmacológico
e psicológico é capaz de auxiliar o manejo
desses sintomas. Os antidepressivos inibidores seletivos
da recaptação de serotonina são medicamentos
modernos, seguros, muito bem tolerados e eficazes que, associados
à terapia cognitivo-comportamental, são considerados
drogas de primeira escolha para o tratamento.
A terapia, por sua vez,
inclui o reconhecimento, a identificação de
sentimentos, pensamentos e reações do organismo
frente a situações que causam a ansiedade
para que o paciente desenvolva planos para lidar com os
sintomas. Além disso, técnicas em habilidades
sociais e de relaxamento auxiliam no manejo do problema.
A família também pode ser associada ao tratamento,
já que o transtorno comumente afeta toda a dinâmica
familiar. A orientação aos pais e professores
por meio de materiais informativos é de grande valia,
pois quanto mais precocemente a família identificar
tais compulsões e buscar tratamento, melhor será
o prognóstico e a busca por qualidade de vida a essas
crianças e adolescentes.
Fique atento
Alguns sintomas podem ser
difíceis de identificar, já que a criança
tenta escondê-los; contudo, comportamentos sugestivos
do transtorno obsessivo-compulsivo podem ser observados
por meio de pequenas compulsões, como:
- Banhos prolongados e repetidas
vezes ao dia.
- Trocas freqüentes de roupa, com aumento da quantidade
para lavar.
- Gasto excessivo de papel higiênico ou sabonetes.
- Entupimentos do vaso sanitário pelo uso excessivo
de papel higiênico.
- Repetições de perguntas ou dúvidas
aos pais, solicitação por repetição
de frases.
- Colecionismo de objetos inúteis como jornais e
revistas velhas ou papéis de bala.
- Gasto de tempo excessivo na realização de
deveres de casa.
- Atos repetidos de fazer e refazer deveres de casa.
- Perfeccionismo.
- Releituras de textos inúmeras vezes.
- Lavar mãos ou escovar dentes incessantemente.
- Verificação excessiva de fechaduras, portas
e janelas.
Referências Bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC PUBLISHING.
Textbook of child and adolescent psychiatry. Washington,
D.C; American Psychiatric Publishing, 2004,
3. ed.
KOLB, B; WHISHAW, I.Q. An
introduction on brain and behavior. Worth Publishers,
2001.
RUTTER, M; TAYLOR, E. Child
and Adolescent Psychiatry. Blackwell Publishing,
2002, 4 ed.
TEIXEIRA, G. Transtornos
Comportamentais na Infância e Adolescência.
Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2006, 1 ed.
Artigo publicado:
Revista Psique Ciência & Vida
Editora Escala
Ano 1 N° 12
www.escala.com.br